
Às vezes, é um pouco difícil fazer amizades com aqueles que utilizam o transporte coletivo de Sorocaba
Terminal Santo Antônio, Sorocaba, SP. Na frente do ponto D, um homem que beira os 30 anos desfila como se fosse um motorista de ônibus. Camisa azul de manga curta, calça e sapato social. O rayban, branco e espelhado, decora a cabeça daquele que, ao que parece, quer chamar a atenção. Ser fashion. Para completar o figurino ele já se adequou à última tendência e, agora, veste os ouvidos com fones que parecem de MP3.
Perto da catraca de entrada, o moço cumprimenta os fiscais, alguns motoristas e segue rumo ao local de embarque de passageiros. Na rua, vazia, ele olha para os retrovisores imaginários, dá seta, pisa na embreagem, engata a primeira marcha e acelera. A boca reproduz o som do motor do ônibus. Dos usuários do transporte pública da cidade presentes poucos parecem prestar atenção no sonhador motorista que parte, sem ônibus, numa viagem em zigue-zague.
Um dos fiscais na frente da primeira entrada no sentido do Pontilhão da Ferrovia diz que esse motorista “bate-cartão” no Terminal há mais de sete meses.
Em um piscar de olhos, a velocidade de seu ônibus aumenta drasticamente, o barulho produzido pela boca é mais forte e a cara de motorista reforça o rosto. Seu nome ninguém sabe. Mas, enfim, nos encontros e desencontros - nem sempre notáveis – ocorridos naquele Terminal quem perguntaria o nome de um desconhecido entre as mais de 70 mil pessoas que diariamente passam por lá.
O relógio registra no painel eletrônico – de números vermelhos – exatamente 17h45, quando a imensidão de ex- e possíveis passageiros se estabelece como fato. A catraca de entrada e saída apita e roda constantemente a cada cinco segundos. Nas extremidades da faixa de pedestre muitos aguardam o ônibus da linha Nova Sorocaba passar e sair do terminal. Todos se atropelam.
Corra passageiro, corra. A presa é para não perder a primeira aula ou para chegar o quanto antes em casa depois de um cansativo dia de trabalho. Nessa hora são poucos os que não participam “desse terminal”. As pombas são as únicas perdidas e amedrontadas pelos ônibus. Insistentes, elas são frequentadoras assíduas em busca do “pão de cada dia”. Enquanto isso, o cão sozinho, feio e cansado, entrega o sono debaixo do bando já ocupado. A cor de pêlo envelhecido e o focinho e orelhas muito grandes não atraem nem mesmo aqueles pequeninos que poderiam exigir a choro e berros para que os pais os deixassem cuidar desses abandonados. O cão, agora, também faz parte de uma pequena parcela do terminal que não se importa com o painel eletrônico de números vermelhos.
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Já do outro lado, no sentido da Avenida Afonso Vergueiro, Márcio dá três passos e pára. Às vezes, até menos. Com vassoura e lixeira de mão, o jovem de 26 anos recolhe tanta bituca de cigarro que nem arrisca afirmar quanto. Também fazem parte de sua rotina palito de fósforo, chiclete mastigado, embalagem de salgadinho, enfim, o lixo que mesmo tão próximo da lixeira foi jogado fora dela.
Na equipe de limpeza daquela terminal, dos 10 funcionários, seis são mulheres. “Coitadas”, além de fazerem o mesmo serviço que os homens, elas ainda limpam os escritórios. O Márcio não reclama do trabalho que conseguiu há um mês. Nem mesmo quando se lembra que é ele quem limpa o banheiro masculino – montado em contenerns devido a reformas. “Pra mim isso é tranquilo”.
Com experiência em limpeza em algumas indústrias da cidade, o faxineiro gosta da movimentação, ora frenética ora um pouco menos, do terminal. No novo emprego ele encontra com amigos e conhecidos o dia todo. Com o Valdomiro (antigo vizinho dos tempos em que morava no bairro Maria Eugênia) ele topa quase todos os dias. Márcio prazerosamente o cumprimenta sempre que vê, mas a conversa nunca se prolonga. Não se pode esquecer que existem possíveis passageiros fumantes esperando um ônibus em qualquer um dos quatro cantos do terminal.
Carlos é um desses passageiros fumantes. Montador de móveis, 32 anos, casado, uma filha. Encostado no prédio de informações, no meio do Terminal Santo Antônio, ele acende o cigarro, enquanto a filha, Juliana, dorme em seu colo. É 12 de agosto, dia das crianças. Para Carlos foi uma das tarde mais cansativas desde 1998, quando a pequena Juliana nasceu.
Horas antes de encontrá-los ali, eles estavam, a pedido dela, em um shopping localizado na mesma avenida do Terminal. Apesar de exausto, é visível que o sorriso quase escondido em Carlos reflete a felicidade por ter passado o dia com a filha. Das voltas e mais voltas dadas nos corredores do consumo, a pequena Juliana se jogou numa pequena piscina de bolinhas, chupou sorvete, brincou com outras crianças em um pequeno playground montado pelo shopping para aquele dia especial. Mas, a menina queria mais: um Mc Lanche Feliz. R$10,50. Ficou para a próxima. Talvez, quando ela for visitar o Papai Noel.
Sorte que agora a pequena dorme e Carlos, enquanto queima o cigarro, pode planejar como gastar o abono. É melhor deixar para pensar nisso em dezembro, pois todos estão cansados e amanhã, sábado, é mais um dia para montar camas. A conversa pára e, como todos os dias, a fila anda.
Dona Maria é unanimidade entre os seres humanos. Às 17h55 de um dia útil qualquer da semana, ela espera pelo ônibus que irá passar lá pelas 19h. O sono daquele cão feio nem se abala quando essa senhora, de mãos manchadas pela idade, senta em um dos assentos de concreto. Mal acomodada, Dona Maria tenta se ajustar na ponta do banco. Talvez pelo tamanho, pouco mais de 1m60, a costa não descansa na grade que cerca o Terminal.
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Entre as duas únicas entradas que ficam ao lado de uma das falecidas chaminés da antiga fábrica têxtil Santo Antônio, ela espera para pegar “mais tarde” o ônibus da linha Vila Helena. Agora não tem lugar para sentar, “mais tarde” o ônibus vai vazio. Num canto do Terminal lotado, coloco um holofote sobre ela. Por instantes, será somente ela.
Dona Maria cobre-se com uma saia até pouco abaixo da canela, veste um apagado pulôver de lã e sapato de pano. Mescla a vestimenta entre as cores azul e branco, mas, aos poucos, demonstra que não é apenas o azul da roupa que se desbotara. Por medo, a bolsa agora é carregada a frente dos olhos.
Na lentidão de seus movimentos percebe-se a fragilidade da saúde. Ela levanta e abaixa constantemente a perna direita. A boca expressa dor, mas a voz já não responde aos sentimentos. Olhando para seus sapatos de pano, e sem a intenção da entrevista, ela responde ao um desconhecido que sente fortes dores, principalmente na “batata da perna”. Em seguida, resguarda-se em silêncio. Fazer amizade no terminal, às vezes, é um pouco difícil.
Dona Maria tira do bolso três balas de yogurt e se cala. Menos de dois minutos e ela, inesperadamente, volta a se comunicar. Incompreendida, reafirma três vezes:
- Olha... A chupeta do diabo.
O que, a princípio, parecia uma veneração à (S)satã, era uma crítica a uma jovem, com aparentemente 30 anos, que fumava um cigarro. Descobre-se que Dona Maria é uma defensora da doutrina propagada pela Igreja Assembléia de Deus / “Igreja Internacional da Graça de Deus”, que, segundo a própria, está instituída logo ali, provavelmente na rua Sete de Setembro.
Novamente ela se guarda em silêncio, agora, por mais de cinco minutos, até que Márcio se aproxima para recolher as dezenas de bituca de cigarro jogadas no chão. Dona Maria pega as embalagens das balas que chupou e joga na lixeira.
O funcionário acaba por trazer a despedida. Honradamente, ela rega o adeus ao ligeiro bate-papo com frases pré-fabricadas da bíblia. Mas quando esse estranho, que bem poderia ser um malfeitor, pergunta sobre o seu sobrenome, a reposta sai pensada, resmungada, com boca e olhos trêmulos.
- Maria ... de Jesus.
Terminal Santo Antônio, Sorocaba, SP. Na frente do ponto D, um homem que beira os 30 anos desfila como se fosse um motorista de ônibus. Camisa azul de manga curta, calça e sapato social. O rayban, branco e espelhado, decora a cabeça daquele que, ao que parece, quer chamar a atenção. Ser fashion. Para completar o figurino ele já se adequou à última tendência e, agora, veste os ouvidos com fones que parecem de MP3.
Perto da catraca de entrada, o moço cumprimenta os fiscais, alguns motoristas e segue rumo ao local de embarque de passageiros. Na rua, vazia, ele olha para os retrovisores imaginários, dá seta, pisa na embreagem, engata a primeira marcha e acelera. A boca reproduz o som do motor do ônibus. Dos usuários do transporte pública da cidade presentes poucos parecem prestar atenção no sonhador motorista que parte, sem ônibus, numa viagem em zigue-zague.
Um dos fiscais na frente da primeira entrada no sentido do Pontilhão da Ferrovia diz que esse motorista “bate-cartão” no Terminal há mais de sete meses.
Em um piscar de olhos, a velocidade de seu ônibus aumenta drasticamente, o barulho produzido pela boca é mais forte e a cara de motorista reforça o rosto. Seu nome ninguém sabe. Mas, enfim, nos encontros e desencontros - nem sempre notáveis – ocorridos naquele Terminal quem perguntaria o nome de um desconhecido entre as mais de 70 mil pessoas que diariamente passam por lá.
O relógio registra no painel eletrônico – de números vermelhos – exatamente 17h45, quando a imensidão de ex- e possíveis passageiros se estabelece como fato. A catraca de entrada e saída apita e roda constantemente a cada cinco segundos. Nas extremidades da faixa de pedestre muitos aguardam o ônibus da linha Nova Sorocaba passar e sair do terminal. Todos se atropelam.
Corra passageiro, corra. A presa é para não perder a primeira aula ou para chegar o quanto antes em casa depois de um cansativo dia de trabalho. Nessa hora são poucos os que não participam “desse terminal”. As pombas são as únicas perdidas e amedrontadas pelos ônibus. Insistentes, elas são frequentadoras assíduas em busca do “pão de cada dia”. Enquanto isso, o cão sozinho, feio e cansado, entrega o sono debaixo do bando já ocupado. A cor de pêlo envelhecido e o focinho e orelhas muito grandes não atraem nem mesmo aqueles pequeninos que poderiam exigir a choro e berros para que os pais os deixassem cuidar desses abandonados. O cão, agora, também faz parte de uma pequena parcela do terminal que não se importa com o painel eletrônico de números vermelhos.
Já do outro lado, no sentido da Avenida Afonso Vergueiro, Márcio dá três passos e pára. Às vezes, até menos. Com vassoura e lixeira de mão, o jovem de 26 anos recolhe tanta bituca de cigarro que nem arrisca afirmar quanto. Também fazem parte de sua rotina palito de fósforo, chiclete mastigado, embalagem de salgadinho, enfim, o lixo que mesmo tão próximo da lixeira foi jogado fora dela.
Na equipe de limpeza daquela terminal, dos 10 funcionários, seis são mulheres. “Coitadas”, além de fazerem o mesmo serviço que os homens, elas ainda limpam os escritórios. O Márcio não reclama do trabalho que conseguiu há um mês. Nem mesmo quando se lembra que é ele quem limpa o banheiro masculino – montado em contenerns devido a reformas. “Pra mim isso é tranquilo”.
Com experiência em limpeza em algumas indústrias da cidade, o faxineiro gosta da movimentação, ora frenética ora um pouco menos, do terminal. No novo emprego ele encontra com amigos e conhecidos o dia todo. Com o Valdomiro (antigo vizinho dos tempos em que morava no bairro Maria Eugênia) ele topa quase todos os dias. Márcio prazerosamente o cumprimenta sempre que vê, mas a conversa nunca se prolonga. Não se pode esquecer que existem possíveis passageiros fumantes esperando um ônibus em qualquer um dos quatro cantos do terminal.
Carlos é um desses passageiros fumantes. Montador de móveis, 32 anos, casado, uma filha. Encostado no prédio de informações, no meio do Terminal Santo Antônio, ele acende o cigarro, enquanto a filha, Juliana, dorme em seu colo. É 12 de agosto, dia das crianças. Para Carlos foi uma das tarde mais cansativas desde 1998, quando a pequena Juliana nasceu.
Horas antes de encontrá-los ali, eles estavam, a pedido dela, em um shopping localizado na mesma avenida do Terminal. Apesar de exausto, é visível que o sorriso quase escondido em Carlos reflete a felicidade por ter passado o dia com a filha. Das voltas e mais voltas dadas nos corredores do consumo, a pequena Juliana se jogou numa pequena piscina de bolinhas, chupou sorvete, brincou com outras crianças em um pequeno playground montado pelo shopping para aquele dia especial. Mas, a menina queria mais: um Mc Lanche Feliz. R$10,50. Ficou para a próxima. Talvez, quando ela for visitar o Papai Noel.
Sorte que agora a pequena dorme e Carlos, enquanto queima o cigarro, pode planejar como gastar o abono. É melhor deixar para pensar nisso em dezembro, pois todos estão cansados e amanhã, sábado, é mais um dia para montar camas. A conversa pára e, como todos os dias, a fila anda.
Dona Maria é unanimidade entre os seres humanos. Às 17h55 de um dia útil qualquer da semana, ela espera pelo ônibus que irá passar lá pelas 19h. O sono daquele cão feio nem se abala quando essa senhora, de mãos manchadas pela idade, senta em um dos assentos de concreto. Mal acomodada, Dona Maria tenta se ajustar na ponta do banco. Talvez pelo tamanho, pouco mais de 1m60, a costa não descansa na grade que cerca o Terminal.
Entre as duas únicas entradas que ficam ao lado de uma das falecidas chaminés da antiga fábrica têxtil Santo Antônio, ela espera para pegar “mais tarde” o ônibus da linha Vila Helena. Agora não tem lugar para sentar, “mais tarde” o ônibus vai vazio. Num canto do Terminal lotado, coloco um holofote sobre ela. Por instantes, será somente ela.
Dona Maria cobre-se com uma saia até pouco abaixo da canela, veste um apagado pulôver de lã e sapato de pano. Mescla a vestimenta entre as cores azul e branco, mas, aos poucos, demonstra que não é apenas o azul da roupa que se desbotara. Por medo, a bolsa agora é carregada a frente dos olhos.
Na lentidão de seus movimentos percebe-se a fragilidade da saúde. Ela levanta e abaixa constantemente a perna direita. A boca expressa dor, mas a voz já não responde aos sentimentos. Olhando para seus sapatos de pano, e sem a intenção da entrevista, ela responde ao um desconhecido que sente fortes dores, principalmente na “batata da perna”. Em seguida, resguarda-se em silêncio. Fazer amizade no terminal, às vezes, é um pouco difícil.
Dona Maria tira do bolso três balas de yogurt e se cala. Menos de dois minutos e ela, inesperadamente, volta a se comunicar. Incompreendida, reafirma três vezes:
- Olha... A chupeta do diabo.
O que, a princípio, parecia uma veneração à (S)satã, era uma crítica a uma jovem, com aparentemente 30 anos, que fumava um cigarro. Descobre-se que Dona Maria é uma defensora da doutrina propagada pela Igreja Assembléia de Deus / “Igreja Internacional da Graça de Deus”, que, segundo a própria, está instituída logo ali, provavelmente na rua Sete de Setembro.
Novamente ela se guarda em silêncio, agora, por mais de cinco minutos, até que Márcio se aproxima para recolher as dezenas de bituca de cigarro jogadas no chão. Dona Maria pega as embalagens das balas que chupou e joga na lixeira.
O funcionário acaba por trazer a despedida. Honradamente, ela rega o adeus ao ligeiro bate-papo com frases pré-fabricadas da bíblia. Mas quando esse estranho, que bem poderia ser um malfeitor, pergunta sobre o seu sobrenome, a reposta sai pensada, resmungada, com boca e olhos trêmulos.
- Maria ... de Jesus.